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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A Rosa do Povo - O "Áporo", sonetilho denso


   

   A Rosa do Povo foi escrita numa época marcada pela Segunda Guerra Mundial e pela ditadura do presidente Getúlio Vargas. E é uma das obras com maior expressão do lirismo drummondiano e modernista. Nela está presente um dos meus poemas prediletos de Carlos Drummond de Andrade, o "Áporo".

ÁPORO
Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.

   Áporo, palavra formada com os elementos gregos a-(prefixo negativo) e poros ("passagem", "saída"), pode ter três significados, são eles: "uma espécie de inseto cavador", "um termo usado para designar um problema sem solução, situação sem saída" e " um certo tipo de orquídea".

   Analisando o contexto histórico que Drummond presenciou durante a década de 1930 e de 1940, e complementando com os significados da palavra áporo podemos verificar que o poema relata a história de um inseto cavador que, numa situação sem saída, se transforma numa orquídea. Mas o que há escondido neste jogo de palavras? Quem é o áporo inseto? O que é a orquídea? Quem é o eu-lírico?

   Podemos analisar cada "pedacinho" desse sonetilho e chegarmos a diversas interpretações. Eu mesma cheguei a várias, mas a que mais me convenceu foi a seguinte:

   O inseto está sufocado, angustiado, e desejando fugir de um lugar que o aprisiona, e ele sabe que precisa tentar esta fuga discretamente para que ninguém o impeça de encontrar a liberdade. Portanto, o eu-lírico pode ser o Áporo inseto, porque ele também está sufocado e angustiado, por isso ele cava a poesia. O eu-lírico procura libertação através do trabalho poético, pois por meio dele pode-se encontrar uma maneira de denunciar e fugir das atrocidades da época.

   A maneira com que a linguagem é manipulada mostra a dificuldade da fuga.

"Um eu-lírico escreve
escreve sem alarme
perfurando a poesia
sem achar escape."

   A escrita é uma maneira de alguém gritar silenciosamente entre tanta repressão. Poderíamos comparar a complexidade da escrita com a complexidade do momento vivido pelo poeta.

   E o Áporo orquídea? Para mim a orquídea é o símbolo da esperança que desabrocha.

Por Priscila Pacheco

domingo, 4 de novembro de 2012

Sete faces? Para Drummond, isso é pouco!



Quando se lê alguma matéria sobre Carlos Drummond de Andrade, o desavisado deve pensar que não há mais o quê conhecer sobre ele por já ter visto tudo que foi dito, escrito ou pesquisado, afinal ele é um dos poetas da literatura brasileira mais lido, estudado e conhecido no Brasil e mundo afora. Pois então, os mais atentos puderam observar que a Festa Literária Internacional de Paraty não havia, ainda, prestado verdadeira homenagem à Drummond. 

E aqui cabe a pergunta, por quê? Simples, não havia o quê dizer. Resposta errada, pelo menos para aqueles cuja ausência do autor mineiro era sentida e vinha aumentando desde a primeira edição em 2003 e que agora completa 10 anos. Tudo isso, porque, apesar de sempre ovacionado pelos leitores e críticos, o grande poeta ainda tem muito a dizer e nos oferece muito o que se discutir. 

OK! Nós perdoamos a todos! Os organizadores da FLIP, que aconteceu  dos dias 4 a 8 de julho, esperaram este ano para ceder em sua programação um vasto espaço de homenagem a esse senhor, que se estivesse vivo completaria, em 31 de outubro de 2012, 110 anos de vida. Justamente, desde o início desse ano, uma série de eventos e lançamentos vem celebrando essa data. 

 
Um deles é o lançamento do livro inédito "Os 25 Poemas da Triste Alegria" da editora Cosac Naïf. Uma “edição comentada”, não apenas pelo próprio Drummond, mas também, por seu amigo e escritor Mario de Andrade. Trata-se de textos escritos entre 1923 e 1924, ou seja, antes da publicação de Alguma Poesia de 1930, seu livro de estreia. O livro reproduz em fac-símile uma edição artesanal de 1924, com poemas datilografados por Dolores Dutra de Morais, sua futura esposa, que foram encadernados e confiados a celebres amigos, entre eles, Mario de Andrade. 

Tempos depois, esse material voltaria para as mãos de Drummond e não se teria mais notícias. O quê o leitor terá, contudo, não é só esse trabalho inaugural. Além dele, um conjunto de notas manuscritas, à margem da produção, datadas de 1937, 13 anos depois. As anotações foram feitas por um Drummond consagrado e maduro suficiente para avaliar com distanciamento crítico seus versos de juventude.

Outro evento que cobre esse ano de comemorações e aconteceu, exatamente, no dia 31 de outubro data de aniversário do poeta, foi a segunda edição do DIA D – Dia Drummond, organizado pelo Instituto Moreira Sales. A ideia surgiu no ano passado e teve a intenção de fazer com que esse dia fosse comemorado e fizesse parte do calendário cultural do país. E para isso, uma programação recheada de atividades foi pensada para os leitores fieis, apreciadores convictos e até para aqueles desavisados do início da conversa. 

Neste ano o IMS promoveu o curso gratuito “Drummond: o tempo e a poesia” ministrado pelo poeta Antonio Cícero, exibiu uma mostra de cinema com filmes da atriz sueca Greta Garbo, musa inspiradora para os poemas do autor e também lançou a edição dos “Cadernos de Literatura Brasileira” dedicada a ele acompanhado dos poetas Eucanaã Ferraz, Ferreira Gullar e o professor da FFLCH – UPS, Ivan Marques em um bate-papo aberto ao público.

E para fechar, a fotógrafa Simone Monte lança dia 9 de novembro, na galeria do cine Reserva Cultural em São Paulo, a exposição “Arrepio”. Ela misturou sua habilidade com as câmeras e sua paixão por poesia e transportou versos de Drummond para o corpo de modelos. Segundo Simone, a ideia era transcrever a palavra do papel para a pele e transmitir o arrepio que lhe causa a poesia. 

Ufa! E Para quem ainda pensa que já viu tudo sobre ele, bobagem! Sete faces é pouco, talvez 110, quem sabe infinitas?!
Por Bruna Freesz

sábado, 25 de agosto de 2012

Nelson Rodrigues, jornalista aos 13 anos



Dono de obras cujos temas principais são o amor, adultério e morte, Nelson Rodrigues adentrou o mundo da escrita bastante cedo. Aos 13 anos de idade iniciou sua carreira jornalística no jornal “A Manhã”, que era do seu próprio pai. Também trabalhou em “Crítica”, outro jornal do pai, “Correio da manhã”, “O Jornal”, “Última Hora”, “Manchete Esportiva” e “Jornal do Brasil”.

No entanto, Nelson não se prendeu aos jornais, ele enriqueceu o teatro brasileiro, teve obras adaptadas para o cinema e televisão.  Além de ter participado de mesas redondas e liderado um programa de entrevistas denominado de “A Cabra Vadia”.

Algumas das obras de Nelson são: Vestido de Noiva, que revolucionou a história do teatro nacional; Engraçadinha, que foi adaptada para uma minissérie da tevê Globo; e Bonitinha, mas ordinária, que foi para o cinema estrelada por Lucélia Santos e José Wilker.

Nelson escreveu muitos contos, crônicas, romances e peças. Enfrentou a censura e conheceu a extrema pobreza na década de 1930, quando o jornal do pai foi fechado. Com certeza, Nelson Rodrigues enriqueceu bastante a nossa literatura. Mas sua história faz com que pensemos em algo que está causando discussões há algum tempo: “O diploma para jornalistas deve ser mesmo obrigatório?”. Bom, Nelson não devia ter diploma quando começou a trabalhar como repórter aos 13 anos de idade.

Confira a entrevista que Nelson Rodrigues concedeu a Otto Lara Rezende


Por Priscila Pacheco

terça-feira, 19 de junho de 2012

A essência do jornalismo literário


  Jornalismo literário é um gênero jornalístico, que rompe os limites das matérias tradicionais. Os frutos desse  tipo de jornalismo surgem de uma pauta distante da mesmice, uma apuração profunda, detalhada e ampla. O ponto de partida é a realidade, por isso o jornalista precisa tomar cuidado para não fantasiar demais.

  O texto do jornalismo literário instiga, seduz o leitor e o surpreende no final sem escapar da sua característica principal: passar a informação real. O livro “O segredo de Joe Gould”, de Joseph Mitchel, é um exemplo dessas  ações. Além dele é possível destacar outras grandes obras do gênero, como, “A Sangue Frio”, de Truman Capote.
   Para escrever obras tão grandiosas esses  autores se envolveram com as fontes e ganharam  confiança para obter informações precisas. É um trabalho árduo, pois além de seduzir a fonte é preciso ter paciência e tempo. As informações relatadas não aparecem de um dia para o outro. Elas surgem aos poucos de acordo com o crescimento da intimidade entre a fonte e o jornalista.

  Seguir esse  ramo na carreira profissional é bastante interessante, no entanto, penso: É possível fazer isso numa era em que a velocidade dita as regras? Em que muitas entrevistas são feitas por e-mail e telefone distanciando o jornalista da fonte? O jornalista pode ter a liberdade de relatar os fatos envolvendo o leitor, fazendo-o  adentrar a história e ter um olhar diferenciado que talvez não surgisse numa matéria de uma lauda.

   Obras desse  gênero foram adaptadas para o cinema, como é o caso de “A Sangue Frio”.

  Por Priscila Pacheco 



Galeria de fotos
Truman Capote
Joe Gould


Joseph Mitchell